terça-feira, outubro 17, 2006

Enquanto afundava os pés, me entretinha em não exteriorizar aquela rusga interna. Não é que não quisesse aborrecê-lo, fazia mais pra ter com o que me ocupar. Depois de tantos anos, era inconteste que eu cortara as pontas com uma faca cega, num primitivismo de ideal de purificação. Sem harmonia, eu ia me lavar em água corrente, me convencendo de que um bilhete de despedida, numa mesa onde sobrevoam as moscas, merecia ser uma obra final.

terça-feira, outubro 10, 2006

no jardim há pouco fotografado por mim, encontro vários trevos de três folhas. é o que dizem ser do azar, enquanto chamo de evolução: quem quer ser arrancado e dado num gesto de presentear, para depois convergir as lembranças e os esquecimentos em si, cor de seco, dentro de um livro?

fechei os olhos, cri no meu próprio esquecimento amassado de livro. além de esquecer e ser esquecido, que se faz? que susto! esquecer é um verbo carente, não conjuga-se sem antes a companhia insensata das recordações. não as quero.

sentei, deitei, caí. não sei se de tropeço, de empurrão, não me parece que estava em outro lugar há anos. não existem pernas que me sustentem no ar: elas são movidas a idéias, dispersas agora. não irei catá-las, não provocarei um mínimo de esforço para mover a ponta do dedo, dobrá-lo e nele enroscar um pensamento. ficarei bem, sentindo o bater das asas dos meus fragmentos. aos poucos, não sobrará nenhum.