sexta-feira, maio 19, 2006

À noite, rói com os olhos, ocioso, as jóias da família, se é que assim se poderia dizer da, entre outras coisas vetustas, meia dúzia de mecanismos enegrecidos pelo mesmo material que fazia bater os pêndulos em tempos de antes; pois um dia ergueu-se a voz que disse "bate" e a ela obedeceu-se sem mais, e daí por diante assim foi, visto que o desejo de que se relacione, ainda que dogmaticamente, nome à função é constante em todas as almas, sejam de plástico, ou ferro ou similar. Traz pra junto de si as pérolas que não se sabe falsas, porque bem poderiam ser verdadeiras. Passa-as na barriga em pêlo, atestando a qualidade da superfície. Abre o leque de terras galegas, imagina-se em pulos junto aos desenhos sobejos que ali, em manhã fria, foram depositados por mãos que pensam "quanto este dará", só que em idioma distante. Enquanto reconta as peças fala sozinho, porque não há lei que se diga que falar só seja feio ou imoral. Pelo contrário, homens alguns, não os de lei, mas comuns, apregoam que este exercício faz crescer e produzir, tanto para o bem quanto para o mal: isso é caso de decidir quem o manipula ou é manipulado. Diante de sua própria voz, pára. Teve medo; era ali a sua voz e não outra. Que seria dele assim, perder-se-ia? Fechou o baú às pressas diante do relance de pressentir-se louco. Louco não o dirão, disse e, assim dito, guardou a caixa na prateleira mais próxima do teto, para dali uma noite a retirar novamente, desta vez com mais cautela.