quarta-feira, fevereiro 22, 2006

mediocridade e afins

à volta, uma borda de duas camadas exerce o ofício de limitar dando gostinho, isto é, de impor um cercado donde a força das pernas freqüentemente se subjuga à fraqueza espiritual: os olhos permanecem por cima, averiguando que é de fato possível, e são eles que se movimentam involuntariamente, presos ao corpo inerte.

a alienação que detém a enxurrada criativa redireciona prioridades por vezes de forma vexatória (tão acostumadas estão as pessoas com seus fatos, suas histórias... estas, de tão tradicionalistas, imploram por verniz, a fim de que as lacunas, os esquecimentos e as imperfeições sejam camufladas num mesmo tom, sem sobressalentes revolucionários. é difícil se desconstruir). e daí, o benefício da mentira. redentora, é ela quem acoberta o corpo que se submete a uma rotina compulsória, nostálgica e vazia, enquanto os dedos, à parte, saltam cintilantes, suspendem o não-dito no ar, às vezes cumprem explanar, às vezes são escutados.

é ainda considerado buscar um papel colorido, ser dor larga a ver se ao menos se lateja, alguma força que vibra em acordes circulares. que seja parco o entendimento acerca dos deslumbramentos, que não se entenda do sublime e da inspiração. acima de tudo, que haja o desconhecido.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

me agarrei ao fio de voz como um guia. era um eco peremptório e urgente, que evocava o ápice de tantas masturbações.não me importo, desde que você continue me colando a voz no ouvido a dizer sacanagens, desde que realmente sejam sacanagens. não, te tenho por mais, não disse ainda. ainda assim, ou por isso mesmo, eu te quero sujo desde que meu, suado e horrorizado com tanto cheiro. o seu, a sua virilha.

domingo, fevereiro 12, 2006

Fugidia

Todo o silêncio que se borda. O frio da cama que vira montanha, pontas de gelo aparando livros. Entende que quando parei de correr, estava aqui. Relendo poemas, fazendo força, eu vou acreditar, vou. As pernas ainda servem. Do lixo, o resto; e eu disse que sairia desse alto mais uma vez, tateando um caminho que não esteja entupido de neblina.

Os sonhos diagramados são inabaláveis, mas sussurram tanta indecência... Especulações com os dedos e pronto, lá está você, mortalmente ferida porque exposta. Recolhem-se os jorros antes desperdiçados, esteja quieta. Muito quieta ao almoçar, porque lá vem antibiótico e há que se ter algum tipo de amor.

domingo, fevereiro 05, 2006

ela é uma bonequinha cheia de modorra, incrédula, decepcionada. ouve as pancadas batendo duro e o rosto permanece de esfinge, cortando mortadela pra mãe que não levanta da cama. se trouxesse vivo o escudo da lembrança, se tranquilamente repousasse na superfície revestimentos de madeira, lustrada, talhada em golpes de tontura, reais, presentes porque seus significados inda inelutáveis, teria o grito permanecido suspenso, a revolta ainda mobilizada. toda a verdade não se mostraria hoje como essa historieta tosca. a mágoa seria então benéfica, transformadora. agora, é o silêncio. irretorquível, inútil. ela é de uma meiguice forjada, agradável e desesperadora. opções.